cultura
A estranheza de Erik Satie
Erik Satie é lembrado hoje principalmente como o autor das Gymnopédies, mas reduzir sua figura a essas peças é ignorar o que realmente o tornava estranho.
Satie vivia de maneira obsessivamente repetitiva. Vestia sempre o mesmo tipo de roupa, comprava objetos idênticos em quantidade excessiva e seguia rotinas rígidas que não explicava a ninguém. Morava sozinho em um quarto pequeno e raramente permitia visitas. Quando morreu, encontraram pilhas de guarda-chuvas e papéis acumulados sem ordem aparente.
Ele escrevia comentários incomuns nas partituras, instruções que não faziam sentido técnico algum. Não era humor simples nem provocação gratuita. Era uma recusa deliberada da linguagem musical tradicional e da autoridade dos intérpretes e críticos.
Satie também rejeitava a ideia de genialidade romântica. Não se via como compositor inspirado nem como virtuose. Preferia se posicionar à margem, desconfiando de qualquer forma de grandiosidade artística. Sua música, simples e repetitiva, era consequência dessa postura, não o ponto central.
Durante boa parte da vida, foi tratado como excêntrico, infantil ou incapaz de se adaptar. Só mais tarde passou a ser reconhecido como alguém que abriu espaço para outras formas de pensar música, tempo e escuta.