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Dados são o novo petróleo?
Dizer que dados são o novo petróleo virou quase um reflexo. A frase aparece em palestras, relatórios e apresentações cheias de gráficos. Repete-se tanto que parece verdade por cansaço.
A comparação faz sentido até certo ponto. Dados, assim como o petróleo, precisam ser extraídos, processados e refinados para ter algum valor. Dados brutos não dizem muita coisa. Só depois de organizados, filtrados e interpretados é que começam a mover decisões, dinheiro e poder.
Mas a metáfora começa a falhar quando a gente olha mais de perto. Petróleo é finito. Dados não são. Petróleo existe independente de quem o observa. Dados, não. Eles dependem de contexto, de escolha, de recorte. Alguém decide o que medir, o que ignorar e o que transformar em número.
Quando se diz que dados são o novo petróleo, geralmente se esconde essa parte. Parece que os dados simplesmente “estão lá”, esperando serem usados. Como se fossem neutros. Como se não carregassem as intenções de quem coleta, de quem organiza e de quem interpreta.
Outra diferença importante é o impacto. Petróleo movimenta máquinas. Dados movimentam pessoas. Eles moldam comportamentos, influenciam decisões, reforçam vieses e criam narrativas que parecem objetivas só porque vêm acompanhadas de números.
Talvez dados não sejam o novo petróleo. Talvez sejam mais parecidos com linguagem. Podem esclarecer, mas também podem confundir. Podem revelar padrões reais ou apenas repetir o que já se acreditava antes.
No fim, a questão não é se dados são valiosos. Eles são. A questão é quem decide o que eles significam. Porque, diferente do petróleo, dados não explodem sozinhos. Eles só fazem estrago quando alguém resolve usá-los sem pensar muito nas consequências.