cultura
Mãe Menininha do Gantois, a maior Ialorixá do Brasil

Mãe Menininha do Gantois foi uma das figuras mais importantes do candomblé no Brasil. Nascida Maria Escolástica da Conceição Nazaré, em 1894, tornou-se ialorixá do Terreiro do Gantois, em Salvador, ainda jovem, e permaneceu nessa posição por mais de seis décadas.
Em um período em que as religiões de matriz africana eram perseguidas, criminalizadas e tratadas como crime ou superstição, Mãe Menininha teve um papel central na preservação e no reconhecimento público do candomblé. Sua atuação ajudou a deslocar o culto do campo da repressão para o da legitimidade cultural e religiosa.
Ela defendia a tradição, os rituais e a hierarquia do candomblé, mas também mantinha diálogo com intelectuais, artistas e líderes políticos. Foi uma das primeiras ialorixás a permitir que pesquisadores estudassem os ritos do terreiro, sem abrir mão do respeito aos limites do sagrado.
O Gantois, sob sua liderança, tornou-se referência não apenas religiosa, mas cultural. Pessoas como Jorge Amado, Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes frequentavam o terreiro, não como curiosidade folclórica, mas como espaço de convivência e aprendizado.
Mãe Menininha também foi fundamental na luta contra o preconceito religioso. Em 1976, participou do processo que levou à liberação oficial dos cultos afro-brasileiros na Bahia, retirando a exigência de autorização policial para a realização dos rituais.
Sua importância não está apenas na fé, mas na forma como ela sustentou uma tradição em meio à repressão, sem transformá-la em espetáculo nem diluí-la para aceitação externa. Sua postura era firme, silenciosa e contínua.
Mãe Menininha morreu em 1986, mas o impacto de sua atuação permanece. Não como símbolo isolado, mas como parte de um processo maior de reconhecimento, resistência e permanência das religiões de matriz africana no Brasil.