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O turco mecânico e a ilusão da IA
No século XVIII, foi apresentada uma máquina que supostamente jogava xadrez sozinha. Um autômato vestido com roupas orientais, sentado diante de um tabuleiro. O público via a máquina vencer jogadores humanos e aceitava a explicação: aquilo era inteligência mecânica.
Só que não era.
Dentro do Turco havia uma pessoa. Um enxadrista escondido, operando tudo por dentro. A máquina não pensava. Ela apenas encenava. A inteligência estava ali, mas invisível.
Essa história costuma ser tratada como curiosidade histórica. O que chama atenção é como o mesmo padrão reaparece.
Hoje, muitos sistemas chamados de inteligência artificial funcionam de forma parecida. Eles parecem autônomos, mas dependem de decisões humanas prévias, dados produzidos por pessoas e trabalho manual que não aparece na interface final.
Rotulagem de dados, curadoria, ajustes finos, regras implícitas. Tudo isso sustenta o sistema, mas fica fora do discurso público sobre autonomia e inteligência.
O Turco Mecânico funcionava porque escondia quem realmente fazia o trabalho.
Em muitos casos atuais, a lógica não é muito diferente.